terça-feira, 19 de abril de 2016

Construção 
Chico Buarque


Amou daquela vez como se fosse a última , beijou sua mulher como se fosse a última , e cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido , subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas , tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima , sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um  príncipe , bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música  , e tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro , e se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público , morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse a último , beijou sua mulher como se fosse a única 
E cada filho seu como se fosse o pródigo , e atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido , ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico , e seus olhos embotados de cimento e tráfego 
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe , comeu feijão com arroz como se fosse o máximo 
Bebeu e soluçou como se fosse máquina , dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música , e flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão como feito um pacote tímido , agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina , beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas , sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe , e se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer , por esse chão pra dormir , a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir 
Por me deixar respirar , por me deixar existir 
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir , pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair 
Deus lhe pague , pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir ,
e pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir , e pela paz derradeira que enfim vai nos redimir 
Deus lhe pague

Um comentário:

Anônimo disse...

Estou sofrendo do "Rodo Cotidiano" do Rappa.